João Signorelli traz Gandhi aos palcos do Recife em espetáculo que inspira transformação e paz interior


Ator que vive o líder indiano há mais de 20 anos fala sobre ética, coerência e a força das escolhas que mudam vidas — inclusive a dele. A peça será encenada neste fiam de semana no Recife. Foto: Cedida

Por Denise Vilar

Conhecido por sua longa trajetória na televisão, no cinema e no teatro, João Signorelli construiu uma carreira sólida e versátil, mas foi com a figura de Mahatma Gandhi que o ator encontrou seu papel mais transformador. Há mais de duas décadas, ele percorre o Brasil e o mundo com o monólogo Gandhi, espetáculo que conecta a filosofia do líder pacifista indiano às inquietações do presente.

Agora, é a vez do Recife receber pela primeira vez a montagem — que também passou por países da Europa, da África e até pela Índia. Ao lado da atriz Thaia Perez, Signorelli sobe ao palco para falar de ética, empatia, saúde mental, amadurecimento emocional e convivência com as diferenças — temas tão atuais quanto urgentes. A apresentação tem ainda um viés social: parte da renda será revertida para o Instituto MHM, que atua no desenvolvimento de crianças e adolescentes da Zona da Mata Sul de Pernambuco.

Em entrevista exclusiva, o ator compartilha como esse trabalho impactou sua vida pessoal, revela por que recusou um papel na TV em nome da coerência com Gandhi e fala da conexão histórica e afetiva que tem com o Nordeste. Confira a conversa exclusiva a seguir.

ENTREVISTA | João Signarelli

Você interpreta Gandhi há quase 20 anos. O que mais te emociona ou te transforma pessoalmente a cada vez que sobe ao palco para dar vida a esse líder tão humano e atemporal?

Olha, não dá para passar incólume por um personagem desse, né? Uma coisa que mais me transformou foi assim, eu consegui, de uma certa maneira, uma independência artística através de um monólogo, que tem uma história de humor, mas é um monólogo que leva a uma reflexão profunda do que nós estamos fazendo aqui. Então, para fazer um personagem desse, se eu não mudasse algumas coisas na minha vida, eu não teria credibilidade junto ao público. A peça já existe há 22 anos, e eu acho que deu certo duas coisas que eu fiz: parar de mentir e cumprir o que eu prometo.
Por incrível que pareça, cumprir o que se promete é mais difícil que parar de mentir. Mas essas duas condições me possibilitaram dizer não de uma maneira gentil para a TV Globo. Numa série chamada Amazônia, queriam que eu fizesse o assassino do Chico Mendes, mas eu falei para o diretor Marco Schettmann, grande amigo meu, que eu não podia fazer o Gandhi e, à noite na TV Globo, meter uma bala na cabeça do Chico Mendes. Glória Pérez e ele entenderam, deram razão a mim, e eu entrei na minissérie fazendo um amigo do Chico Mendes.

Então eu pensei, o Gandhi venceu o maior império político-militar da época, que era a Inglaterra, sem dar um tiro, só na conversa. Eu venci o maior império teledramatúrgico do Brasil em telecomunicação, sendo gentil, sendo fiel a mim mesmo. Essas são as grandes mudanças que aconteceram na minha vida com esse espetáculo.

A peça chega pela primeira vez ao Recife, após apresentações na Índia, Europa e África. Como você espera que o público recifense/ nordestino se conecte com as mensagens de Gandhi e quais reflexões gostaria que as pessoas levassem para casa?

Eu acho que vocês, pernambucanos, uma coisa linda, tem uma noção de cidadania, uma noção política, uma atuação muito forte politicamente, filosoficamente e culturalmente. Então, eu tenho certeza que o público recifense vai se conectar com essa mensagem do Gandhi também, que é uma mensagem humanista, que é uma mensagem politicamente tentando dizer para as pessoas que é possível conviver em paz com as diferenças, que é possível viver em paz com fronteiras. Aliás, como cantou o John Lennon, vamos imaginar um mundo sem fronteiras, como seria maravilhoso. Como eu acho que o Pernambuco se conecta muito com o Oriente, uma tradição árabe muito forte, judia, então, Pernambuco tem esse olhar para o Oriente. E a gente trazendo o Gandhi para Pernambuco é maravilhoso, porque estou levando para um dos maiores estados do Brasil, uma região maravilhosa que eu amo, que é o Nordeste, que tem tantas dificuldades políticas, climáticas, econômicas, uma mensagem de paz, de amor e de esperança na humanidade.

E respondendo a segunda parte da pergunta, eu gostaria que as pessoas levassem para casa a reflexão de que nós podemos ser a mudança que queremos ver no mundo. Se o Gandhi conseguiu fazer um trabalho maravilhoso, Martin Luther King conseguiu, Pepe Mujica conseguiu, indo lá para trás na história, Jesus Cristo conseguiu, Buda, Maomé, entende? Então, eu acho que é possível nós olharmos para o outro e sabermos que atrás de cada par de olhos tem uma história. E essa história precisa ser respeitada. Então, eu espero que o público leve para casa uma coisa que eu sempre levo comigo. Cada pessoa que está na sua frente é um representante de Deus.

A montagem é simples, baseada na força do texto e da atuação. Como foi o processo de selecionar e adaptar as histórias e reflexões de Gandhi para torná-las próximas da realidade atual e acessíveis para diferentes plateias ao longo desses anos?

Eu sinto que o Miguel Filhage, o autor da peça, foi muito feliz que ele escolheu algumas reflexões, algumas passagens da peça que estão muito próximas da gente. Também no fundo, infelizmente o discurso do Gandhi é muito atual. Nós não mudamos nada, estamos aqui nesse conflito internacional entre Rússia e Ucrânia, esse conflito regional entre Israel e a faixa de Gaza, atentados terroristas, muita droga, muita violência doméstica, muito feminicídio. Então, eu acho que o público de Pernambuco, o público de Recife vai se conectar com isso, porque eu sinto que… Eu tenho muitos amigos aí no Recife, já passei vários carnavais aí, o pessoal da família dos Rosa, do teatro Rosa Borges, Sérgio Lobo, Maneto, enfim. Então eu sinto que artísticamente, temos Lenine, Alceu Valença, se eu for falar aqui o número de pessoas filosóficas e artistas de Pernambuco, a gente vai passar o dia inteiro. Eu sinto que o público vai receber isso muito bem e vamos refletir junto como é que a gente pode melhorar nós como seres humanos para podermos contribuir para a evolução na nossa civilização. E também como é que a gente pode resolver a questão planetária, de que a única saída é o amor.

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