História de doação entre irmãos no Recife marca o Dia Mundial do Rim e reforça a importância do transplante renal e da doação de órgãos no Brasil. Fotos: Arquivo Pessoal/ Divulgação
“Quando meu irmão chegou em casa falando sobre a insuficiência renal, eu nem pensei no grau em que ele estava. Logo disse: ‘vou te dar um’”, relata Ana Macia, empresária e irmã de José Marcelo, que teve a vida transformada após o diagnóstico de doença renal crônica (DRC), em 2023.
Após quase dois anos realizando hemodiálise, ele recebeu um transplante renal intervivo — quando o órgão é doado por uma pessoa viva — graças a um gesto de amor da própria irmã.
No dia 12 de março, é celebrado o Dia Mundial do Rim, data que reforça a importância da conscientização sobre as doenças renais e da doação de órgãos. Segundo os últimos dados da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN), mais de 170 mil pessoas estão atualmente em diálise no Brasil, número que cresce ano após ano. Já o Ministério da Saúde informa que o transplante de rim representa cerca de 70% do total de transplantes de órgãos realizados no país. Em números absolutos, o Brasil ocupa a terceira posição mundial entre os países que mais realizam transplantes renais.
A rotina da hemodiálise
Durante um ano e 11 meses, José Marcelo, piloto de avião, passou por sessões de diálise três vezes por semana. “Foi mais uma adaptação. O difícil era não poder viajar ou sair com tanta liberdade, porque existia o compromisso com a máquina e uma alimentação mais regrada”, lembra.
A hemodiálise é um dos tratamentos mais comuns para pacientes com insuficiência renal avançada. No entanto, segundo especialistas, o transplante renal costuma oferecer melhor qualidade de vida e maior autonomia aos pacientes.
Para José, a possibilidade do transplante surgiu dentro da própria família. Assim que soube que o irmão precisaria de um rim, Ana Macia se ofereceu para fazer os exames de compatibilidade.
“Quando contei que precisaria de um rim, ela disse que queria doar e fazer o teste. Logo no primeiro exame vimos que éramos compatíveis. Fiquei muito feliz”, relembra o piloto.
O procedimento foi realizado por meio de transplante renal intervivo, modalidade em que o órgão é doado por uma pessoa viva. Segundo Cristiano de Souza Leão, cirurgião do aparelho digestivo, com mais de 20 anos de experiência em transplante renal, do Hospital Santa Joana Recife, da Rede Américas, responsável pelo procedimento, essa modalidade apresenta vantagens importantes.
“No transplante intervivo, o intervalo entre a retirada do rim do doador e o implante no receptor é muito curto, o que reduz o risco de disfunção do órgão. Além disso, dentro da família conseguimos buscar o doador mais compatível, o que pode melhorar o funcionamento do rim transplantado”, explica o especialista.

Segurança para quem doa
Uma das maiores dúvidas da população é sobre os riscos para quem decide doar um rim. De acordo com o especialista, a avaliação médica rigorosa garante segurança ao procedimento.
“O doador passa por uma investigação detalhada para identificar qualquer alteração que possa aumentar riscos. A doação é uma cirurgia e, como toda cirurgia, envolve riscos, mas na doação eles precisam ser mínimos. Quando todos os critérios são atendidos, é possível realizar o procedimento com segurança”, afirma Cristiano de Souza Leão.
Ele destaca ainda que pessoas que doam um rim podem levar uma vida normal. “O doador pode viver normalmente com apenas um rim. A principal recomendação é evitar medicamentos que possam prejudicar a função renal.”
Ana Macia complementa: “Minha rotina não mudou após a cirurgia. Sigo com uma vida normal. Valeu muito a pena. Todo o processo foi algo surreal, inexplicável e muito feliz, pois pude ajudar de alguma forma”.
Uma nova vida após o transplante
Depois do transplante, José Marcelo relata que as mudanças foram rápidas e significativas. “A primeira coisa foi não precisar mais da hemodiálise. Sumiram sintomas que a máquina deixava, como enjoo, dores fortes de cabeça e ânsia. O apetite voltou e já posso consumir mais líquidos”, conta.
Com a recuperação, ele também percebeu melhora no peso, no aspecto físico e na disposição para as atividades do dia a dia. “O transplante me devolveu a liberdade de não estar preso à diálise dia sim, dia não”.
José Marcelo reforça que o procedimento é seguro e incentiva quem ainda tem dúvidas sobre a doação de órgãos. “Podem confiar e fazer sem medo. É a vida dando outra chance”, finaliza.