Especialistas apontam que experiências longe das telas e da rotina escolar fortalecem autonomia, empatia, liderança e inteligência emocional de crianças e adolescentes. Fotos: Divulgação
Em uma época em que celulares, videogames e redes sociais disputam cada vez mais a atenção de crianças e adolescentes, pais e educadores têm buscado experiências capazes de desenvolver habilidades que vão além do desempenho escolar. É justamente nesse ponto que referências como a CASEL (Collaborative for Academic, Social and Emotional Learning) e a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) convergem: formar crianças emocionalmente preparadas para a vida é tão importante quanto desenvolver competências acadêmicas.
Autonomia, empatia, cooperação, comunicação, responsabilidade e capacidade de resolver conflitos fazem parte das competências socioemocionais defendidas pela CASEL e reforçadas pela BNCC como essenciais para a formação integral dos estudantes.

Mas como essas habilidades são desenvolvidas na prática?
Para a psicóloga clínica e organizacional Jannine Calixto, as colônias de férias oferecem um ambiente privilegiado para esse desenvolvimento. “Sem a presença dos pais, as crianças são incentivadas a desenvolver sua autonomia, enfrentando desafios que fortalecem sua confiança e habilidades sociais. Além disso, as atividades ao ar livre e a redução do tempo de tela favorecem a criatividade, a convivência e o desenvolvimento emocional.”
Na prática, esse desenvolvimento também pode ser observado de forma estruturada. A pedagoga e especialista em comportamentos empreendedores e sócio emocional da Cia do Lazer, Rose Jarocki, explica que a convivência permite analisar o comportamento das crianças em situações reais. “Temos a possibilidade de um relatório vivencial, a percepção nossa em relação à criança. Eu trabalho quatro construtos principais: autonomia, liderança, controle emocional e relacionamento. Faço um casamento dessas observações com a BNCC e com a CASEL, estruturando uma análise mais ampla e consistente, que resulta em um relatório muito significativo.”

Segundo Rose, essas experiências complementam aquilo que é desenvolvido na escola. “A criança vive situações reais de convivência, resolução de conflitos, autonomia nas escolhas e construção de vínculos. Isso tudo traz uma leitura muito rica do seu processo de crescimento.” Se a teoria e a observação profissional demonstram os benefícios, a experiência das famílias confirma os resultados.
A empresária Ana Nascimento, mãe de três filhos que já participaram duas vezes do acampamento da Cia do Lazer, conta que o maior desafio acontece antes mesmo da viagem. “Como mãe, achamos muitas vezes que os nossos pequenos não podem sair da nossa zona de proteção, e até temos receios e pensamos: será que eles vão se sair bem sozinhos? Ficamos mais aflitos e ansiosos do que eles mesmos.”
Ela afirma, porém, que a experiência transforma também o olhar dos pais. “Toda essa percepção muda quando eles voltam felizes, roucos, em êxtase, cheios de histórias para contar e já fazendo planos para a edição seguinte. É surpreendente para eles e para a gente também.”

O relato traduz, na prática, aquilo que CASEL e BNCC defendem: competências socioemocionais são fortalecidas quando crianças e adolescentes vivenciam experiências reais de convivência, desenvolvendo autonomia, responsabilidade, empatia e confiança.
É esse o propósito do Acampamento da Cia do Lazer, realizado há 36 anos, sempre nos períodos de férias escolares, em Porto de Galinhas. Voltado para crianças e adolescentes de 7 a 14 anos, o programa reúne atividades recreativas, esportivas, desafios em equipe e momentos de integração em um ambiente seguro, planejado para estimular o desenvolvimento integral.
Mais do que uma semana de férias, a proposta é proporcionar experiências que permanecem muito depois do retorno para casa, refletidas na autonomia, nas amizades construídas e nas histórias que cada criança leva consigo.