Com o tema “Histórias de Resistência”, festival reúne oficinas, sessões gratuitas e produções pernambucanas e nacionais até sábado (29), com programação também prevista para assentamentos. Fotos: Divulgação
A cidade de Amaraji, na Zona da Mata Sul de Pernambuco, recebe, a partir desta segunda-feira (24), a quinta edição do Cinema na Mata – Curta a Palavra. Com o tema “Histórias de Resistência”, o festival segue até sábado (29) com uma programação que combina cinema, formação e valorização da memória e da cultura local.
Idealizado pela cineasta Clara Angélica e pela produtora Jô Conceição, o projeto reúne oficinas e sessões gratuitas de curtas e longas-metragens. Entre os destaques estão “Corisco e Dadá”, que completa 30 anos, e “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho, indicado em quatro categorias ao Oscar 2026. As exibições acontecem em diferentes espaços de Amaraji, incluindo uma sala de cinema montada sob uma lona de circo no Pátio de Eventos Valmir Soares.

A programação também aposta na formação como ferramenta de acesso à cultura. Duas oficinas começam nesta segunda-feira. “Do Papelão ao Livro: Costurando Memórias sobre Amaraji”, ministrada por Rodrigo Philippini e Lujan Farias, será realizada até sexta-feira (28), das 8h30 às 12h30, na Biblioteca Municipal Dom Carlos Coêlho. A atividade propõe a produção artesanal de livros cartoneros a partir de memórias, narrativas e aspectos culturais do município.
No período da tarde, das 13h30 às 17h30, a Escola Municipal São José da Boa Esperança recebe a oficina “Do Livro ao Filme”, conduzida pelo cineasta, professor e crítico de cinema Alexandre Figueirôa. A proposta é apresentar os processos de adaptação literária e capacitar os participantes para transformar obras de ficção em roteiros cinematográficos.

Cinema que chega onde a sala não chega
A proposta de descentralização é uma das marcas do Cinema na Mata. Em setembro, o festival também chega ao Assentamento Engenho Estivas, onde será realizada a oficina “Para Se Acercar das Próprias Histórias”, com Verônica Pragana. A atividade busca estimular memória, escuta e reconexão dos participantes com suas próprias histórias.
Também estão previstas sessões de cinema nos assentamentos, incluindo a exibição de “O Auto da Compadecida 2”. “Essa mostra é importante por levar cultura para territórios onde as políticas públicas dificilmente chegam. Nos assentamentos por onde o Cinema na Mata passa, a grande maioria das pessoas nunca foi ao cinema. Por isso, o cinema vai até eles para proporcionar vivências inéditas”, destaca Jô Conceição.

Programação cinematográfica
As sessões de longas-metragens em Amaraji começam na quarta-feira (26), às 16h, no EREM Antônio Alves de Araújo, com “Corisco e Dadá”, de Rosemberg Cariry. O filme, lançado há 30 anos, teve passagens por festivais internacionais, incluindo Toronto, no Canadá, e Ankara, na Turquia. O elenco reúne Chico Diaz, Dira Paes, Regina Dourado, Denise Milfont e Virgínia Cavendish.
Na quinta-feira (27), a programação reúne os curtas “Quem Semeia Lixo Colhe Inundação”, de Anninna Dias e Céu, e “Cidade Apagada: Declínio da História”, de Ana Paula, Gerlany Barros, Lóren Stayner e Márcio Meira. Na sequência, será exibido “A Luneta do Tempo”, dirigido por Alceu Valença e estrelado por Irandhir Santos e Hermila Guedes nos papéis de Lampião e Maria Bonita.
A sexta-feira (28) será dedicada ao público infantil a partir das 16h, com os filmes “Salu e o Cavalo Marinho”, “As Aventuras de Pety”, “O Menino que Sabia Voar” e “Quintal”.
À noite, a programação segue com os curtas “De Criança a Idoso: Todo Mundo Acorda Povo”, “Os Arcos Dourados de Olinda” e “Buenos Aires”, de Tuca Siqueira, que aborda a cidade pernambucana que compartilha o nome da capital argentina.
O encerramento acontece no sábado (29), a partir das 19h, com a exibição de “O Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho. O longa, estrelado por Wagner Moura, conta ainda com Hermila Guedes, Robério Diógenes, Maria Fernanda Cândido e Fabiana Pirro no elenco. Fabiana também será a mestre de cerimônias do festival.

Literatura, cinema e território
Antes do Cinema na Mata, Clara Angélica e Jô Conceição desenvolveram duas edições do Livros Andantes, projeto que levava livros de autores nacionais para assentamentos do MST, transportados em caçuás de jumentos e destinados à formação de bibliotecas comunitárias.
A experiência serviu de inspiração para a criação do festival, que passou a aproximar literatura e audiovisual e, ao mesmo tempo, levar o cinema para públicos que tradicionalmente têm pouco acesso às salas de exibição.
“A primeira edição gerou uma expectativa muito grande na equipe porque, além das exibições, estávamos trazendo oficinas com formações totalmente desconhecidas: stop motion e cineclubismo. (…) O envolvimento das pessoas, tanto na Zona Rural como na cidade, foi impressionante. Procuramos criar uma ambiência lúdica, montando a sala de cinema sob a lona do circo”, recorda Clara Angélica.
Assim, em sua quinta edição, o Cinema na Mata reafirma a proposta de fazer do audiovisual uma ferramenta de formação, memória e acesso à cultura, conectando a produção cinematográfica a diferentes comunidades da Mata Sul pernambucana.