Foto: Divulgação
Depois de passar por Recife, os fotógrafos Ulisses Moura, Dhyego Lima e Nivaldo Carvalho levam a Garanhuns, no dia 5 de setembro, no Centro Cultural SESC Garanhuns, a exposição Casa Habitada
O universo doméstico, com sua intimidade, memórias e afetos, é o território de investigação da exposição Casa Habitada, dos fotógrafos pernambucanos Ulisses Moura, Dhyego Lima e Nivaldo Carvalho. O projeto, que tem curadoria de Milena Travassos, chega a Garanhuns depois de temporada em Recife e abre ao público no dia 5 de setembro, no Centro Cultural SESC Garanhuns. A partir das 18h, haverá abertura e bate-papo com a curadora e os fotógrafos. A mostra pretende ir além do registro documental, propondo um “documentário imaginário” sobre a vida familiar a partir do olhar dos três.
Com 58 obras, entre fotografias de variadas dimensões e uma videoarte, a exposição — que tem incentivo do Governo de Pernambuco através do Edital FUNCULTURA Geral 2024-2025— mergulha no cotidiano de pessoas ligadas afetivamente aos fotógrafos. As casas, habitadas por pessoas e cenários, tornam-se personagens centrais das narrativas visuais, nas quais objetos ordinários — como uma cadeira de balanço, um varal ou uma televisão — ganham significado poético. Todas as fotografias foram realizadas no decorrer do ano de 2021, momento marcado pela pandemia da Covid-19.
Ainda que partam do registro da realidade, o trio não se propõe a trazer “verdades”, “testemunhos”. As imagens buscam incitar a imaginação e fomentar o diálogo. Por isso, a adoção do conceito de “documentário imaginário”, desenvolvido pela pesquisadora Kátia H. Lombardi, que oferece ferramentas para realizar apropriações e reconstruções na contemplação desse conjunto de imagens.
“A autora ressalta, além do caráter técnico das imagens fotográficas, suas particularidades culturais e estéticas. Cada foto é passível de modulações provocadas por elas, por seu contexto temporal e espacial, como também por quem as olha. O documentário misturado com o imaginário ofereceu-nos abertura para exercitarmos um recorte poético ao pensar a montagem da exposição e a leitura das obras”, explica a curadora Milena Travassos.
Dentro dessa proposta, a curadoria organizou o percurso em três eixos temáticos derivados das próprias imagens: “Solidez”, com o ensaio de Ulisses Moura sobre sua avó, dona Hozana; “Limite”, explorado por Dhyego Lima através das janelas que demarcam o dentro e o fora; e “Fluxo”, onde Nivaldo Carvalho registra a mudança de sua casa, tratando objetos e corpos como rastros fugidios.
SOLIDEZ
No eixo “Solidez”, Ulisses Moura apresenta um ensaio íntimo sobre sua avó, Dona Hozana. As imagens, em tons de sépia e preto e branco, registram sua rotina, incluindo a extenuante jornada de hemodiálise — sugerida por um curativo visível em sua perna. Cenas do cotidiano, como observá-la sentada na porta de casa olhando a rua, congelam com afeto momentos de introspecção.
O olhar do fotógrafo, que também atuou como cuidador, capturou a dualidade entre a fortaleza e a fragilidade da matriarca. A fotografia surge aqui como um meio de processar e conviver com essa dor e compreender as transformações impostas por essa rotina. “Ao ter a fotografia como paixão, optou por fazer de sua câmera um meio para conviver com a realidade que se apresentava. Expressões, rotinas, momentos de apatia, distração e ócio foram congelados com respeito e afeição. Nas imagens de Ulisses, encontramos algo de sobriedade, de permanência que atravessa gerações. Sua avó não é apenas retratada – ela é celebrada como pilar familiar, memória viva que ancora a narrativa doméstica”, comenta Milena Travassos.
Além da exibição das imagens, há uma preocupação com a ambientação da mostra. Em Solidez, o clima é dado pela presença de uma cadeira de balanço e de paredes vermelho vivo.
LIMITE
No eixo “Limite”, Dhyego Lima apresenta uma série de dípticos fotográficos que exploram as janelas como elemento central. A proposta surgiu de visitas a amigos, registrando momentos cotidianos de pausa ou ações simples. As janelas surgiram como o cenário ideal para capturar esses momentos cotidianos e cheios de afeto.
É através das janelas que o interior se encontra com o exterior, numa casa elas são como limites, aproximando tudo que está dentro do turbilhão de fora, luz, sons, cheiros… O artista explora todo esse simbolismo em seus registros. As janelas são vistas em dois momentos: primeiro vazias, depois acompanhadas pelos moradores da casa. Esse conjunto de imagens convida o espectador a observar as janelas, cada uma delas cercada por um entorno interno e também como um ponto de fuga para o exterior. “Em tempos de isolamento, as janelas se tornaram nossos portais para o mundo. Dhyego captura essas molduras que delimitam territórios, que criam diálogos entre o íntimo e o público, o seguro e o desconhecido. Cada janela fotografada conta uma história sobre os limites que habitamos – físicos, emocionais, simbólicos. Durante a pandemia, esses limites se tornaram ainda mais significativos”, pontua a curadora.
Cenograficamente, este núcleo contará com paredes pretas, iluminação direcionada aos dípticos e “mensageiros dos ventos” suspensos no teto, recriando poeticamente a atmosfera das janelas retratadas.
FLUXO
No eixo “Fluxo”, Nivaldo Carvalho registra o processo de mudança de sua própria casa, capturando o desmonte do espaço doméstico em imagens em preto e branco. Estantes vazias, pilhas de livros, caixas e objetos pessoais compõem um balé frenético de transição, onde corpos – incluindo o do artista e de seu filho recém-nascido – aparecem como rastros em movimento.
A série provoca e não se preocupa apenas em documentar o processo físico de mudança, trata do deslocamento existencial inerente ao ato de mudar. A luz, utilizada como elemento narrativo, evidencia a passagem e a transformação, revelando como a casa se torna uma extensão de seus habitantes. O projeto inclui ainda uma videoarte criada a partir do mesmo processo.
“Durante o período de mudança de casa, Nivaldo encontrou poesia no transitório. Objetos empacotados, espaços vazios, seu filho pequeno navegando entre caixas – tudo vira registro sensível do movimento constante da vida doméstica. O fluxo não é apenas mudança física, é também transformação emocional. É o tempo que não pára, mesmo quando estamos confinados em casa”, explica Milena Travassos.
Para imersão do público, o espaço expositivo contará com caixas e objetos pessoais espalhados pelo chão, disponíveis para interação, reforçando a sensação de transição e reorganização proposta por este núcleo.
A exposição conta com ações educativas e medidas de acessibilidade cultural para Pessoas com Deficiência (PCD). A programação conta com uma série de bate-papos on-line individuais com os fotógrafos e a curadora Milena Travassos. No dia 26 de setembro, às 16h, a curadora conversa com Dhyego Lima; no dia 17 de outubro, também às 16h, será a vez de Ulisses Moura; e, encerrando a mostra, no dia 5 de março de 2027, às 18h, a conversa será com Nivaldo Carvalho. Na ocasião que também marca o lançamento do catálogo da exposição que será no Centro Cultural SESC Garanhuns. Todos os bate-papos são abertos ao público e contam com gravação e intérprete de Libras.
Casa Habitada
Ulisses Moura, Dhyego Lima e Nivaldo Carvalho
Curadoria: Milena Travassos
Centro Cultural SESC Garanhuns – 2º andar
Rua Cônego Benigno Lira, s/nº, Centro, Garanhuns-PE.
Abertura, 5 de setembro de 2026, às 18h (Bate-papo com a curadora Milena Travassos e os fotógrafos Dhyego Lima, Nivaldo Carvalho e Ulisses Moura)
Visitação: de 5 de setembro de 2026 a 5 de março de 2027. De terça a sábado de 09:00 às 20:00 e aos domingos de 11:00 às 20:00.
Agendamento para visitas mediadas: (87) 99682-0068
Entrada gratuita
Programação:
05/09/2026, das 18h às 20h — Abertura e bate-papo com Milena Travassos e os fotógrafos Dhyego Lima, Nivaldo Carvalho e Ulisses Moura.
26/09/2026, às 16h — Bate-papo on-line com Dhyego Lima e Milena Travassos.
17/10/2026, às 16h — Bate-papo on-line com Ulisses Moura e Milena Travassos.
05/03/2027, às 18h — Encerramento da exposição. Bate-papo com Nivaldo Carvalho e Milena Travassos. Lançamento do catálogo.
FICHA TÉCNICA
Curadoria: Milena Travassos
Fotógrafos: Dhyego Lima, Nivaldo Carvalho e Ulisses Moura
Coordenação geral: Nivaldo Carvalho
Produção executiva: Ewerton Ferreira
Coordenação de montagem e desmontagem: Nivaldo Carvalho
Projeto expográfico: Nivaldo Carvalho
Montagem: Edson (Taroba) e Daniel Luciano
Design gráfico: Nara Castro
Sinalização: Anderson Rocha Design
Coordenação educativa: André Aquino
Equipe de mediação: Ewerton Rodrigues, Vinicius Sildeli, Victoria Ellen, Leandra Barros e Jaqueline Teixeira
Acessibilidade comunicacional: W&W Acessorias
Fotografia/videomaker: Rafael Felipe e David Ferreira
Assessoria de imprensa: Mariola Comunicação
Redes sociais: Nara Castro
Impressão Fine Art e molduras: ADI – Atelier de Impressão
Parcerias: Centro Cultural SESC Garanhuns, Provisual Gráfica e Dig Dig Joy Personalizados
Agradecimentos: equipe do Centro Cultural SESC Garanhuns e a todas as pessoas que direta ou indiretamente contribuíram para a realização desta exposição.