Foto: Daniel Marcelino
Suor Angélica: Resistência e arte das cantoras do Recife tem três apresentações no Teatro de Santa Isabel
A presença feminina é exclusiva da concepção às coxias e ao palco na adaptação de uma ópera dedicada a provocar reflexões sobre dilemas sociais de ontem e hoje comuns às mulheres. A versão recifense de “Suor Angelica”, do autor italiano Giacomo Puccini, mantém elenco integralmente feminino para transplantar à contemporaneidade questões levantadas pela obra nas primeiras décadas do século passado. A montagem é encenada por cantoras líricas e estudantes de canto da capital e da Região Metropolitana do Recife em três apresentações realizadas nos dias 25, 26 e 27 de setembro, no Teatro de Santa Isabel, com entrada gratuita.
A trama acompanha o enclausuramento forçado de Angélica (Karla Karolla e Yane Ramalho, que se revezam) em um convento depois de uma gravidez fora do casamento e repudiada pela família e, a partir do conflito estabelecido por uma sociedade de formação patriarcal, aborda questões atemporais como maternidade, exclusão social, culpa, luto, transcendência, opressão machista e liberdade feminina. A versão original ganha, na adaptação recifense, a inserção de um narrador para facilitar a compreensão da história pelo público e o estabelecimento de pontes culturais com a realidade atual e a realização conta com apoio do Sistema de Incentivo à Cultura (SIC), da Fundação de Cultura da Cidade do Recife, vinculada à Secretaria de Cultura da Prefeitura do Recife.
As apresentações serão precedidas, no dia 25, por atividades de formação destinadas a aproximar sobretudo estudantes da rede pública do universo da ópera. O ensaio geral será aberto à participação de alunos e terá roda de conversa com diretores da ópera, às 16h (antes da apresentação inaugural, às 20h). Elementos cênicos, cenografia, figurino, iluminação, ambientação teatral e todos os aspectos envolvidos na apresentação da ópera são conduzidos por mulheres para reforçar o aceno de gênero em todas as fases dessa seara artística e cultural.
O papel principal, de Angélica, será interpretado pela cantora lírica Karla Karolla, também responsável pela coordenação geral do espetáculo. “O projeto nasceu de um desejo que já vinha me acompanhando há algum tempo de realizar uma montagem de ópera que, além de levar uma grande obra do repertório lírico ao público, pudesse valorizar quem produz e faz ópera em Pernambuco, especialmente as mulheres. A obra de Giacomo Puccini é muito intensa, com uma escrita musical belíssima e uma história construída inteiramente a partir de personagens femininas”, observa. “A ideia envolveu montar a obra de Puccini e, ao mesmo tempo, colocar em evidência a presença, o trabalho e a resistência das mulheres dentro da nossa cena lírica”, complementa.
A cantora e atriz ressalta a atualidade dos temas evocados pela ópera escrita no início do século 20 e posiciona a encenação como ensejo para estimular reflexões necessárias sobre o papel da mulher na sociedade. “A própria história de Suor Angelica contém questões que continuam muito presentes: maternidade, culpa, julgamento, abandono, relações de poder e as consequências impostas a uma mulher pelas escolhas que faz sobre a própria vida. É impressionante perceber como algumas dessas questões ainda encontram eco hoje”, diz. No palco e nos bastidores, Suor Angélica revisita o passado para ampliar um coro urgente ainda hoje.
Serviço
Ópera (adaptação) Suor Angelica, de Giacomo Puccini
Quando: 25 e 26 de setembro, às 20h, e no dia 27, às 19h
Onde: Teatro de Santa Isabel, na Praça da República, s/n, em Santo Antônio, no Recife
Quanto: acesso gratuito
Atividade extras: 25 de setembro, às 16h, ensaio geral aberto e roda de conversa com estudantes da rede pública de ensino
Ficha Técnica:
Realização: 2K Produções
Direção musical e regência: Hadassa Rossiter
Direção cênica e concepção cênica: Rose Mary Martins
Direção executiva: Sebastiana Gomes
Coordenação geral: Karla Karolla
Pianista: Andréia Rocha
Preparadora corporal: Taciana Gomes
Protagonistas de Suor Angelica: Karla Karolla / Yane Ramalho
Atriz/Narração: Isadora de Alencar