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Estudo realizado nos Estados Unidos identificou associação entre o consumo de informações políticas negativas, o aumento da ansiedade e a redução do engajamento profissional; especialista da Unifanor Wyden orienta como manter uma relação mais saudável com o noticiário
Acompanhar as notícias sobre política faz parte do exercício da cidadania, mas o consumo frequente de informações negativas pode provocar desgaste emocional e interferir na rotina, inclusive no ambiente de trabalho. Um estudo realizado pela Universidade Texas A&M, nos Estados Unidos, identificou uma associação entre o aumento da exposição a notícias políticas negativas, níveis mais elevados de ansiedade e menor engajamento profissional. Os resultados foram divulgados em setembro de 2026, na revista científica Computers in Human Behavior.
A pesquisa acompanhou 308 trabalhadores norte-americanos durante nove semanas, no período das eleições primárias presidenciais de 2024. Os participantes responderam a questionários sobre o consumo de notícias políticas, os sentimentos despertados pelas informações e aspectos da experiência profissional. Os pesquisadores observaram que, nas semanas em que os trabalhadores consumiram mais notícias negativas do que o habitual, os níveis de ansiedade aumentaram. Já as informações percebidas como positivas estiveram associadas a sentimentos de esperança e maior disposição para colaborar com colegas. Os resultados indicam uma relação entre o consumo de notícias e o bem-estar, mas não comprovam, isoladamente, uma relação direta de causa e efeito.
Segundo Miguel Lessa, psicólogo e coordenador do curso de Psicologia da Unifanor Wyden, a exposição frequente a conteúdos negativos pode intensificar a percepção de ameaça, mesmo quando os acontecimentos não provocam consequências imediatas na vida da pessoa. “Em cenários de polarização e incerteza, interpretamos a instabilidade política como uma ameaça real ao futuro, ao estilo de vida ou aos recursos individuais, mesmo quando os eventos não geram um efeito prático imediato no nosso dia a dia”, explica.
De acordo com o especialista, a exposição constante a conteúdos alarmistas pode manter o organismo em estado de alerta, favorecendo reações de estresse e apreensão diante de possíveis desfechos políticos. Esse desgaste pode ultrapassar o momento em que a pessoa está diante da tela e repercutir na concentração, no desempenho profissional e na convivência com outras pessoas.
Um dos sinais de alerta é quando a busca por informação deixa de ser consciente e passa a ocupar tempo excessivo, sem proporcionar alívio para as preocupações. Dificuldade de concentração, cansaço, tensão muscular, dores de cabeça, palpitações e alterações no apetite podem acompanhar esse processo. O comportamento também merece atenção quando a pessoa sente necessidade constante de conferir redes sociais, pesquisas eleitorais e comentários sobre os acontecimentos, mesmo quando isso prejudica outras atividades.
“Na tentativa de aliviar a incerteza, uma forma de fuga dos pensamentos automáticos, a pessoa acaba ficando presa em um ciclo que só aumenta a ansiedade”, observa Miguel Lessa. O psicólogo acrescenta que o desgaste também pode aparecer nas relações interpessoais, por meio de irritabilidade, hostilidade diante de opiniões divergentes e aumento de conflitos.
Para preservar o bem-estar emocional sem deixar de acompanhar os acontecimentos políticos, o especialista recomenda estabelecer horários específicos para consultar as notícias, desativar notificações e evitar o acesso às redes sociais logo ao acordar ou próximo da hora de dormir. Também é importante reservar tempo para atividades prazerosas, exercícios físicos e momentos de descanso, além de diversificar as fontes de informação e buscar conteúdos que apresentem iniciativas construtivas e perspectivas de solução para os problemas.
“Não adianta saber que consumir em excesso notícias ruins gera ansiedade, é preciso organizar o ambiente para evitar esse consumo”, orienta o psicólogo. A proposta não é ignorar o cenário político, mas desenvolver uma relação mais consciente com as informações, reconhecendo os próprios limites e buscando equilíbrio entre o acompanhamento dos acontecimentos e a preservação da saúde mental.