Na mesa “Mulheres Gerando o Samba”, no palco Let’s Samba do REC’n’Play 2025, artistas negras reafirmam a força e a ancestralidade feminina que sustenta o ritmo dentro e fora das rodas. Foto: Eduardo Scofi/ REC’n’Press
O samba foi território de encontro, memória e resistência durante a realização da mesa “Mulheres Gerando o Samba”. Realizada no palco Let’s Samba, espaço do REC’n’Play 2025, o debate reuniu Maria Pagodinho, Helena Cristina e Luana Tavares, três gerações de sambistas negras que vêm transformando o gênero e abrindo caminhos para outras dentro do ritmo.
A proposta da conversa foi destacar o papel das mulheres como força motriz na sustentação e reinvenção do samba. Entre histórias, lembranças e reflexões, a mesa mostrou que o samba, mais do que ritmo, é também um território de disputa simbólica e de resistência. As artistas compartilharam suas experiências no enfrentamento do machismo estrutural, que historicamente limitou a presença feminina nas rodas e o desejo de reconstruir esse espaço com mais equidade, ancestralidade e afeto.
“A gente sabe que é tudo muito difícil e a gente ainda tem que enfrentar algumas barreiras, principalmente as barreiras machistas. Antigamente, as rodas de samba eram compostas só por homens. As mulheres não tinham acesso, mas hoje a gente cria o nosso próprio samba, produz o nosso próprio samba e traz outras mulheres. E traz os homens. Vejam só que diferença?”, afirmou Helena Cristina.
Com quase 40 anos de carreira, Maria Pagodinho foi reconhecida como precursora feminina do samba recifense, especialmente no histórico Pagode do Didi, espaço que ajudou a consolidar a cena local.
“Os espaços que as mulheres ocupam ainda não são suficientes. A gente precisa de muito mais, com certeza. Quando comecei, era sozinha no meio dos homens, escondida do meu pai, que não aceitava. Era outra época, tudo muito mais crítico. Mas eu segui, porque eu gostava e pronto. Hoje, depois de tanto tempo, continuo fazendo minha história. E digo para todo mundo: faça a sua também. O espaço é para todo mundo, e quem veio para ficar, fica, ninguém tira. Andorinha sozinha não faz verão. É muito importante que todo mundo dê a mão e levante mulheres negras”, comenta Maria Pagodinho.
Essa ideia de união foi também reforçada por Helena. “Maria me deu a mão para eu chegar. Eu dei a mão para Luana chegar, e assim o caminho é gigante. Às vezes, a gente só precisa de um empurrãozinho, principalmente em locais onde não recebemos a devida valorização.”
Para Luana Tavares, mulher preta da Zona da Mata, a resistência feminina ainda enfrenta olhares de desconfiança dentro das rodas. “A gente precisa meio que provar que sabe fazer. Ainda existe isso. A gente chega numa roda majoritariamente masculina e os rapazes estranham, como se a gente precisasse de autorização para ocupar lugares que são nossos”, disse.
Ela destacou também a importância de dar visibilidade às mulheres instrumentistas, que enfrentam ainda mais barreiras para se firmar nos palcos. “É importante trazê-las para o debate e colocar luz sobre o trabalho incrível que elas fazem.”
*Texto de Eduardo Scofi, extensionista do REC’n’Press, sob supervisão de Nicolle Gomes