Arte, escuta e cuidado: projeto com adolescentes transforma vivências em cartilha coletiva

A Criativa – Caminhos em arteterapia, através de seus idealizadores Hugo Dubeux e Gardênia Fontes, realizou projeto com estudantes da ETE Porto Digital. Fotos: Rafael Mudo

A arte como espaço de escuta, cuidado e criação de si é o ponto de partida da cartilha lançada pela “Criativa – caminhos em arteterapia”, como produto final do projeto “Soft Skills – Caminhos para criação de si”, iniciativa financiada por meio do Sistema de Incentivo à Cultura (SIC), através da Prefeitura do Recife. Desenvolvido ao longo de 12 encontros presenciais com adolescentes da Escola Técnica Estadual Porto Digital (ETE Porto Digital), o projeto resulta em uma publicação construída coletivamente, que registra vivências, reflexões e atravessamentos de um processo formativo voltado ao desenvolvimento humano, emocional e social. A cartilha está disponível gratuitamente para acesso em link na bio do Instagram da Criativa (@criativa_arteterapia) e também será distribuída para os alunos da ETE Porto Digital no dia 12 de maio.

Idealizada por Hugo Dubeux e Gardênia Fontes, a “Criativa – Caminhos em arteterapia” articula arte, cultura, cuidado e educação em projetos que compreendem a criação artística como uma tecnologia humana de elaboração da experiência, fortalecimento do trabalho em grupo e transformação social. A iniciativa nasce do encontro entre trajetórias artísticas, arteterapêuticas e pedagógicas, atuando tanto no desenvolvimento individual quanto no fortalecimento das relações em grupo, equipes e processos coletivos.

“O projeto propôs um tempo de pausa e escuta para adolescentes que já vivem muitas pressões. Através da arteterapia e da criação artística, foi possível fortalecer autonomia, comunicação e convivência em grupo, colocando o cuidado emocional no centro do processo formativo”, expressa Hugo Dubeux.

No projeto “Soft Skills – Caminhos para criação de si”, essa perspectiva se materializou na formação de um grupo arteterapêutico com adolescentes, propondo um percurso vivencial centrado no desenvolvimento de habilidades emocionais, relacionais, criativas e comunicacionais, competências essas fundamentais para a vida pessoal, social e profissional. Por meio de práticas arteterapêuticas, jogos teatrais, artes visuais, escrita e práticas de expressão criativa, os encontros buscaram aproximar os jovens de seus corpos, emoções, identidades e histórias, fortalecendo a autonomia, a escuta, a convivência em grupo e a potência de criação.

A cartilha lançada agora é o registro sensível desse percurso. Escrita a partir da experiência vivida pelos próprios adolescentes, a publicação traduz, em palavras e imagens, reflexões sobre comunicação, criatividade, empatia, escuta, trabalho coletivo e autoconhecimento. Ao longo do material, os jovens refletem sobre “as máscaras que nos moldam”, sobre a importância de perceber o humano como um ser emocional e sobre a criação de espaços de abrigo e confiança mútua, onde fragilidade não é fraqueza e ser ouvido transforma a experiência de existir.

“Essa cartilha guarda memórias, atravessamentos e descobertas que aconteceram no grupo. Ela materializa um percurso de escuta, afeto e criação coletiva, e convida outras pessoas a refletirem sobre suas próprias máscaras, emoções e formas de se relacionar com o mundo”, enfatiza Gardênia Fontes.

Mais do que um produto editorial, a cartilha afirma a arte como território de cuidado e elaboração de si e do coletivo. “Entre encontros, conversas e muita arte, criamos memórias e versões de nós mesmos”, sintetizam os participantes, ressaltando o caráter coletivo e afetivo do processo. O material também convida a exercitar a empatia consigo e com o outro, reconhecendo que cada pessoa carrega histórias, desafios e sonhos próprios.

Como estratégia central de acessibilidade e permanência, o projeto concedeu 12 bolsas no valor total de R$ 500,00 para cada adolescente participante, destinadas exclusivamente a apoiar a continuidade no percurso formativo. As bolsas funcionaram como um reconhecimento concreto do tempo, do envolvimento e das realidades socioeconômicas desses jovens, garantindo condições mais justas de participação em um contexto marcado por pressões escolares, exigências precoces do mercado de trabalho e desafios familiares.

“O projeto Soft Skills foi muito importante para mim porque me deu um espaço de expressão que a gente normalmente não tem no dia a dia. Lá, minha criatividade pôde fluir de verdade. Experimentei desenhos, esculturas e escrita, descobrindo possibilidades artísticas que antes eu nem imaginava, e isso acabou refletindo até fora do projeto, porque depois passei a escrever mais e a ter mais confiança no que produzo. Como pessoa com deficiência visual, me senti realmente incluído em todas as atividades. A acessibilidade não era só um detalhe, ela estava presente nos desenhos, nas esculturas, nos poemas e nas interações, e desde Hugo e Gardênia até toda a equipe, todo mundo se preocupava em garantir que eu participasse de tudo, o que me fez sentir muito acolhido”, declarou Adryan Renan Batista, adolescente e estudante da ETE Porto Digital.

“O projeto Soft Skills – Caminhos para Criação de Si foi um marco na minha vida porque me ajudou a me entender melhor, a compreender os outros e a me comunicar de forma mais consciente. Antes, eu não tinha noção de muitos aspectos sociais e relacionais, e ao longo do processo percebi que tinha mudado de verdade. O projeto também me mostrou que soft skills vão muito além do mercado de trabalho, têm a ver com escuta, presença, comunicação e convivência. E foi uma experiência transformadora que vai deixar muitas saudades”, relatou João Guilherme Gomes, também aluno da ETE Porto Digital.

A importância de um projeto como o “Soft Skills – Caminhos para criação de si” reside justamente em enfrentar lacunas históricas da educação formal, que tradicionalmente prioriza o desenvolvimento técnico em detrimento do cuidado com as dimensões emocionais, relacionais e criativas. Ao oferecer um espaço seguro de escuta, experimentação e elaboração subjetiva, a iniciativa possibilitou que os adolescentes testemunhassem e expressassem suas habilidades empáticas, comunicativas, de cooperação, autorregulação emocional, pensamento crítico, ao mesmo tempo em que se reconhecessem como sujeitos criadores, capazes de narrar suas próprias experiências e projetar caminhos mais conscientes para a vida adulta.

Como desdobramento do compromisso com a acessibilidade, a cartilha também tem versão acessível para pessoas cegas, e conta com um QR Code onde o celular leva diretamente para a audiodescrição da cartilha, ampliando o alcance do material e reafirmando o cuidado com a democratização do acesso à cultura e ao conhecimento.

O lançamento da cartilha pela “Criativa – Caminhos em arteterapia” reafirma o papel das políticas públicas de cultura como ferramentas estratégicas para o desenvolvimento humano, social e educacional, especialmente quando articulam arte, escuta e protagonismo juvenil em processos que reconhecem os jovens não apenas como público, mas como criadores de sentidos, narrativas e futuros possíveis.

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