“Minha Cabeça, Nossa Natureza: histórias das exposições de uma obra em expansão e do processo de criação de Christina Machado” percorre trajetória e residência artística no Hospital Ulysses Pernambucano, destacando como a arte pode promover acolhimento, liberdade e expressão dentro do contexto hospitalar. Fotos: Divulgação
Com 50 anos de carreira e obras profundamente marcadas pela natureza humana, poética e liberdade, a artista plástica Christina Machado dá mais um passo significativo em sua trajetória e lança, em 28 de maio, o seu primeiro livro, intitulado “Minha Cabeça, Nossa Natureza: histórias das exposições, de uma obra em expansão e do processo de criação de Christina Machado”. Ao longo de 67 páginas, a obra reúne exposições, a narrativa da passagem da artista e os trabalhos desenvolvidos durante Residência Artística realizada no Hospital Ulysses Pernambucano (HUP) – que resultou em um projeto homônimo ao livro -, abordando seu processo criativo. A organização é assinada pela curadora e historiadora Joana D’Arc Lima.
Dividido em dois momentos, o lançamento acontece na Universidade Federal de Pernambuco, das 10h às 12h, com intérprete de Libras, e, a partir das 15h30, no Hospital Ulysses Pernambucano, integrando a programação do Maio Antimanicomial da unidade, em alusão ao Dia Nacional da Luta Antimanicomial, celebrado em 18 de maio. Após o evento, o livro ficará disponível gratuitamente no site da artista com versões em português, inglês e espanhol.

“Tempo de Carne e Osso”, de 2004, uma das exposições detalhadas no livro, relembra Christina, foi uma experiência primordial que levou a artista não apenas a ampliar sua pesquisa com a argila, como a explorar seu corpo inteiro nas obras, trazendo e incorporando o uso de novas linguagens como a instalação, a performance e a videoarte. O projeto foi essencial para a criação de “Minha Cabeça, Nossa Natureza”, que viria a ser desenvolvido durante a sua residência no HUP, também conhecido como Hospital da Tamarineira, três anos depois.
No ano de 2005, por meio da Semana de Artes Plásticas do Recife (SPA das Artes), Christina chegou ao HUP, um dos polos do evento, onde foi convidada a participar de uma oficina de sucata hospitalar junto a outros artistas. Dessa experiência nasceu a obra “Cama Sem Pé Nem Cabeça”, que pode ser explicada como uma espécie de representação do inconsciente coletivo, construída a partir de sucatas de camas que haviam sido utilizadas no internamento de pessoas assistidas pela instituição.
Ainda a convite da SPA das Artes, em 2009, com a artista já dispondo de um Ateliê Residência instalado dentro da unidade hospitalar, desenvolveu outro trabalho, cujo objetivo foi criar uma interação com o público do hospital e os visitantes. Por se tratar de um hospital psiquiátrico, a artista pensou em obras cuja materialização envolvesse a criação de cabeças em barro.

A partir daí, ela disponibilizou sessenta modelos de cabeças em argila, reproduzidas na mesma fôrma em que moldou o seu próprio corpo na exposição de 2004. Trabalharam no projeto pacientes do hospital, de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), estudantes e artistas como Aslan Cabral, Dantas Suassuna, Gil Vicente e Fernando Peres, tendo estes, em algumas ocasiões, dividido o mesmo espaço e, em outras, atuando de forma simultânea durante uma semana.
Além de conduzir e vivenciar o fazer artístico, Christina Machado também registrou as memórias de todo o processo por meio de fotografias e vídeos, documentando as diversas intervenções feitas sob sua própria imagem. Daí, surgiu a inspiração para o nome “Minha Cabeça, Nossa Natureza”. A coleção foi organizada e exibida em duas exposições, a primeira em 2012 e a segunda em 2023, de forma itinerante na cidade de João Pessoa, na Paraíba.
Para Christina Machado, toda essa vivência mostrou como a arte pode aliviar dores e criar espaços de expressão e inclusão diante do adoecimento, do sofrimento e do isolamento. “Apesar do adoecimento, do sofrimento psíquico e do isolamento social, questões enfrentadas diariamente pelas pessoas internadas no HUP, existia uma liberdade no fazer artístico. Por meio da argila, criávamos momentos de alívio, em que elas podiam transformar em arte situações dolorosas de suas vidas e se expressar. Sinto que o Ateliê ajudou a diminuir essas dores e a proporcionar experiências para além do ambiente hospitalar. Eu aprendi muito com elas, e o que vivi ali segue como referência para enfrentar dúvidas, medos e receios; a minha coragem também vem desse lugar “, explica.
O Ateliê Residência, ao longo dos seus seis anos de funcionamento, de 2007 a 2013, reforçou o papel fundamental que a arte gera no campo da saúde mental, contribuindo para a expressão de sentimentos, a comunicação e a interação social, além de promover a inclusão e a integração de pessoas que estavam afastadas do convívio em sociedade e ainda enfrentavam, por muitas vezes, preconceitos e estigmas.
Como forma de agradecer e materializar o fim desse ciclo, em 2012, a artista reuniu as cabeças de cerâmica, junto à vivência com as pessoas que passaram por sua vida e lhe trouxeram ensinamentos e novas perspectivas, culminando na criação da série chamada “Meus Eus”.
De acordo com a historiadora, curadora e responsável pela organização do livro, Joana D´Arc Lima, diante deste contexto, o trabalho de Christina Machado gerou uma grande contribuição ao aproximar a arte da psicanálise. Registrar tudo na obra também evidencia as pessoas que fizeram parte desses processos de criação, destaca a Lima.
“Reunir todo esse trabalho — os fazeres, as peças — e registrar o nome das pessoas presentes através do livro, pessoas que talvez constassem apenas no prontuário do Hospital da Tamarineira, é também uma forma de trazer à tona a existência delas, de não deixar que fossem apagadas por viverem de forma isolada da sociedade. É maravilhoso poder contar essa história marcante, que resultou em um acervo de grandes dimensões, composto por objetos e esculturas produzidos coletivamente por vários grupos que por ali passaram”, finaliza.
O livro “Minha Cabeça, Nossa Natureza” possui incentivo do Sistema de Incentivo à Cultura (SIC), gerido pela Fundação de Cultura e pela Secretaria de Cultura da Prefeitura do Recife.

Sobre Christina Machado
Formou-se em licenciatura/artes plásticas no ano de 1979, pela UFPE. Logo depois, conheceu a argila e a adotou como matéria condutora de expressão depositando nela todas as experiências vividas, iniciando um laboratório livre da qual a pesquisa faz parte constante e traz a natureza a seu serviço. Deriva dessas experimentações a criação de objetos, esculturas e painéis onde a cerâmica integra-se também a projetos arquitetônicos e obras públicas. Desenvolve formas alternativas de trabalhar com a matéria, com a participação do público por meio de workshops, oficinas, cursos e vivências sensoriais. No diálogo com a argila, encontra sua poética e traz outros elementos como mote de expressão através da performance, instalações, videoarte, cinema, entre outros.
Serviço:
Lançamento do livro “Minha Cabeça Nossa Natureza: histórias das exposições, de uma obra em expansão e do processo de criação de Christina Machado”, de Christina Machado
Quando: 28/05
Horário: das 10h às 12h, no Auditório Evaldo Coutinho, no Centro de Artes e Comunicação (CAC) da UFPE (Av. da Arquitetura, s/n, Cidade Universitária, Recife); e às 15h30, no Hospital Ulysses Pernambucano (Av. Rosa e Silva, 2130, Tamarineira, Recife – Com acesso pela Rua Cônego Barata).
Onde acessar o livro: Após o lançamento, a obra ficará disponível no site https://christinamachado.art/
Ficha Técnica “Minha Cabeça, Nossa Natureza”
Coordenação Geral: Christina Machado
Produção Executiva: Olívia Morim
Organização: JoanaD´Arc de Souza
Pesquisa: Christina Machado, Joana D’ Arc Lima
Textos: Christina Machado, Cristina Mendonça, Everaldo Júnior, Gabriel Dionísio e Joana D´Arc de Souza
Entrevista: Cristiana Tejo, Christina Machado, Joana D’ Arc Lima
Trancrições: Kerolainy Kimberlin
Fotografias: Amanda Pietra – Mulher Floresta: Performance, 2025, Jardim Botânico, Recife/PE. Camilo Soares – Eu Tu Ele Nós Vós Eles, tem que ser assim?: Ação performática, 2013, Recife/PE. Clarissa Garcia – Impressões sobre minha Vagina: Instalação, 2002, Recife/PE. Dominique Berté – Ateliê Aberto: Hospital Ulysses Pernambucano, Recife/PE; Minha Cabeça, Nossa Natureza: Exposição, 2012, Recife/PE; Tempo de Carne e Osso: Set de filmagem e registros de vivências em Tambaba/PB e Carnaúba dos Dantas/RN, Exposição e registros de performances, vivências e processos da exposição, 2004, Recife/PE. Fred Jordão – A pele é o que separa o corpo do mundo: Exposição individual, 2005, Recife/PE; Cosmo Chão: Exposição coletiva, 2024/2025, Recife-PE. Luiz Santos – Gambiarra, Sistema Móvel de Sensações Rústicas I e II: Exposição coletiva, 1999 em Paris – França e 2000 em Recife/PE; Minha Cabeça, Nossa Natureza: Vivência SPA das Artes, 2009, Recife/PE. Milena de Andrade – Minha cabeça, Nossa Natureza: Vivência SPA das Artes, 2009, Recife/PE. Roberta Guimarães – Minha Cabeça, Nossa Natureza: Exposição, 2023, João Pessoa/PB. Rogério Alves – Passagem: Vivência Performática, 2014, Recife/PE.
Revisão: Maria Alice Morim e Gilberto Clementino Neto
Tradução para inglês e espanhol: Gilberto Clementino Neto
Projeto Gráfico: Olívia Morim
Impressão: Próvisual Gráfica e Editora
Assessoria de Imprensa: Dupla Comunicação
Acessibilidade em Libras no lançamento: Patrícia Albuquerque
Incentivo: SIC – Sistema de Incentivo à Cultura / Fundação de Cultura Cidade do Recife / Secretaria de Cultura / Prefeitura da Cidade do Recife.