Foto: Diego Vale
Iniciativa em parceria com o Instituto Riachuelo e Catarina Mina busca desenvolver novos produtos com identidade cultural e potencial de mercado
O crochê produzido no Seridó potiguar ganhou novos caminhos de criação, identidade e mercado nesta semana. O Sebrae no Rio Grande do Norte promoveu oficinas com artesãs crocheteiras de Caicó e Acari dentro da iniciativa “Feito de Criar Produto”, voltada ao desenvolvimento da Coleção Poti. As atividades aconteceram na segunda-feira (25), na Casa do Artesão do Seridó, em Caicó, e na terça-feira (26), em Acari.
A ação é realizada em parceria com o Instituto Riachuelo e conta com a participação de Celina Hissa, diretora criativa da marca Catarina Mina, referência nacional em design autoral e artesanato. A proposta é desenvolver novos produtos com foco no crochê, valorizando a identidade cultural da região e ampliando as possibilidades de comercialização em feiras, exposições e outros espaços de venda.
De acordo com Maézia Teodora, gestora de Economia Criativa do Sebrae-RN, a iniciativa busca fortalecer o artesanato potiguar por meio da melhoria de produtos e da valorização da tipologia do crochê. “A ideia é fortalecer a presença da cultura por meio das peças e desenvolver produtos com bom potencial de mercado para feiras nacionais”, destacou.
Para Celina Hissa, a experiência no Seridó representa uma oportunidade de criação compartilhada com mulheres que carregam saberes artesanais importantes. “A gente está pensando essa coleção para fortalecer o artesanato, conectando com a identidade cultural da região e valorizando esse fazer artesanal tão forte e representativo no Seridó”, afirmou.
A diretora criativa explicou que o trabalho parte de uma metodologia de escuta e construção conjunta. A ideia é desenvolver 10 peças artesanais com cada grupo, totalizando 20 peças, para comercialização em feiras que acontecerão no segundo semestre, dentro e fora do Rio Grande do Norte.
O projeto dá continuidade a uma experiência anterior com o bordado, outra tipologia fortemente associada ao Seridó. Agora, o foco no crochê amplia o olhar sobre a diversidade de saberes presentes no território. Para Celina, a região deve ser compreendida como um espaço de múltiplas artesanias. “Trabalhar o crochê aqui no Seridó mostra a potência das artesãs não apenas como detentoras de um único saber artesanal, mas como guardiãs de várias tipologias”, ressaltou.
O analista técnico do Sebrae-RN, José Rangel, reforça que a iniciativa faz parte de um movimento mais amplo de valorização de diferentes tipologias artesanais no Rio Grande do Norte. “Nós precisamos avançar com outras tipologias, especialmente no Seridó, que é uma região muito forte. Esse trabalho chega em um momento importante, porque desenvolve produtos conectados com o mercado e com possibilidade de venda durante todo o ano”, afirmou.
Rangel também destacou a relevância da consultoria conduzida por uma marca como a Catarina Mina. “Trazer uma consultoria com uma marca que tem expertise no artesanato para o Brasil e para o mundo é muito importante. Hoje estamos em outro patamar, desenvolvendo produtos que possam ir para o mercado nacional”, completou.
Além dos espaços físicos de comercialização, como a Casa do Artesão do Seridó e o Mercado do Artesão de Acari, o Sebrae também enxerga no ambiente digital uma importante vitrine. “Queremos fortalecer a maior base de comercialização do artesão, que hoje está na palma da mão: o online”, observou Rangel.
Em Caicó, a artesã Heloísa Menegel, que trabalha com crochê, bordado rococó e pintura, acredita que a nova coleção pode repetir o êxito alcançado com a experiência anterior envolvendo o bordado. “Nós já tivemos uma criação com a Catarina Mina, com artesãs ligadas ao Bordado de Caicó, e isso culminou em uma exposição na Festa de Sant’Ana. Até hoje esses produtos continuam sendo vendidos”, contou.
Também participante da oficina em Caicó, a artesã Kalinne Alves, presidente da Associação Caicó Mostra Caicó, trabalha exclusivamente com crochê há seis anos. Para ela, a oficina amplia horizontes criativos e comerciais. “Muitos artesãos ficam concentrados apenas no município, mas uma ação como essa, com uma estilista de fora, leva o nosso nome a nível nacional e mostra o potencial que temos aqui”, afirmou.
Kalinne destaca que a oficina também provoca as artesãs a saírem da zona de conforto. “Eu trabalho com sapatinho infantil e amigurumi (ursinhos de crochê), então estou me adaptando, saindo daquilo que já faço, para criar algo com identidade regional e voltado para o vestuário. Isso abre a mente da gente para melhorar acabamento, desenvolver novas peças e perceber que somos capazes”, relatou.
Em Acari, a artesã Regina Oliveira, que trabalha com crochê há cerca de 30 anos e também produz peças em fuxico e bordado ponto cruz, vê na capacitação uma oportunidade de crescimento. “O artesanato é uma das minhas fontes de renda. Uma capacitação como essa promovida pelo Sebrae é muito importante porque nos ajuda a melhorar o trabalho, enxergar novas oportunidades e aperfeiçoar nossa produção”, declarou.
A artesã Graça Andrade, membro do Conselho da Associação Criativa de Artesãos Acarienses, aprendeu crochê ainda aos 12 anos e mantém a técnica como parte de sua vida até hoje. Aposentada, ela tem no artesanato uma segunda fonte de renda e avalia que a oficina contribui diretamente para a qualificação das peças. “Uma capacitação como essa é muito importante porque nos ajuda nos aperfeiçoamentos, trazendo novas habilidades e técnicas que fortalecem nosso trabalho e também ajudam na venda”, afirmou.
Com a Coleção Poti, o Sebrae busca estimular a inovação sem perder de vista a tradição, aproximando design, identidade cultural e mercado. A partir da troca entre artesãs, consultoria criativa e instituições parceiras, o crochê produzido em Caicó e Acari passa a ganhar novas possibilidades de circulação, fortalecendo a economia criativa e reafirmando o Seridó como território de saberes artesanais diversos.