Economia prateada: a força de quem transforma experiência em propósito e negócio

Após 35 anos dedicados à educação, a aposentadoria parecia ser o próximo passo natural na trajetória da pedagoga Conceição Varella. Mas, em vez de desacelerar, ela decidiu iniciar um novo capítulo profissional. Ao lado dos sócios Leonardo Tinoco e Andrea Mota, transformou uma antiga propriedade rural da família em um modelo de negócio sustentável que une agroecologia, educação ambiental e inovação.

Localizada em Macaíba, na Região Metropolitana de Natal, a Fazenda Matina tornou-se referência em práticas regenerativas e produção orgânica. O empreendimento integra um movimento cada vez mais expressivo no Brasil: o da economia prateada, formada por empreendedores e consumidores com mais de 60 anos que seguem economicamente ativos, impulsionados não apenas pela busca por renda, mas também por propósito, realização pessoal e impacto social.

Dados do Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas) mostram que o país encerrou 2023 com cerca de 4 milhões de empreendedores sêniores, o equivalente a 13,5% dos quase 30 milhões de donos de negócios existentes. Em 2012, eram 2,8 milhões. O crescimento de 42,9% em pouco mais de uma década revela uma transformação demográfica que já movimenta setores inteiros da economia. “A fazenda não era valorizada porque diziam que era uma terra estragada. O projeto começou a ganhar força durante a pandemia. Leonardo fazia pequenos plantios para familiares e percebemos que havia potencial para algo maior. Decidimos investir em um modelo que cuidasse da terra de forma regenerativa”, recorda Conceição Varella.

Mais do que uma propriedade rural, a Fazenda Matina funciona como uma sala de aula a céu aberto. Certificada pelo Sebrae como produtora orgânica desde 2023, a iniciativa recebe estudantes, pesquisadores, empresas e visitantes interessados em conhecer um sistema produtivo baseado na sustentabilidade ambiental, econômica e social.

Com formação acadêmica na área de Educação, Conceição encontrou uma forma de unir sua experiência profissional ao novo empreendimento. “Sempre trabalhei com processos educativos e percebi que este espaço também poderia ensinar. Aqui mostramos que sustentabilidade vai muito além da ausência de agrotóxicos. Ela envolve o uso consciente dos recursos naturais, o reaproveitamento de resíduos, a geração de renda e a transformação de comportamentos”, explica ela.

A propriedade utiliza sistemas de reaproveitamento de água da chuva, aquaponia, compostagem e produção de húmus, além de desenvolver práticas que minimizam desperdícios ao longo de toda a cadeia produtiva.

Para Conceição Varella, o negócio representa uma continuidade de sua missão de vida. “Nosso objetivo não é apenas produzir alimentos. Queremos promover mudanças de atitude por meio da alimentação saudável e da consciência ambiental. Conhecimento não pode ficar parado”, afirma.

Propósito. Essa também é a palavra que define a trajetória da empresária Rosângela Farias. Proprietária de uma agência de viagens em Natal, ela encontrou no público sénior um nicho que se transformou em vocação. Hoje, 99% de seus clientes têm mais de 60 anos. “A partir de determinada fase da vida, as pessoas sentem necessidade de conviver com quem compartilha experiências semelhantes. Viajar passa a ser também uma forma de socialização e pertencimento”, diz.

O envelhecimento da população brasileira tem ampliado o potencial da economia prateada. A expectativa de vida no país passou de 62,6 anos em 1980 para 76,4 anos em 2023, criando novas demandas de consumo e oportunidades de negócios.

Ao longo dos anos, Rosângela aprendeu que atender esse público exige sensibilidade e personalização. “O roteiro que vendo para uma pessoa não é o mesmo que ofereço para outra. Cada cliente tem suas necessidades, limitações e interesses. Por isso, criamos experiências sob medida, desde viagens completas até passeios de um único dia para quem já não consegue enfrentar deslocamentos longos”, explica.

Essa atenção aos detalhes deu origem a um reconhecimento espontâneo dos próprios clientes. O slogan da empresa não surgiu de uma campanha publicitária, mas da percepção de quem participa das viagens: ‘Dandara Cuida’.

A busca por qualidade de vida levou ao registro histórico de mais de 13 milhões de donos de negócios com mais de 60 anos no Brasil, segundo levantamento do Sebrae, que também mostrou que é, justamente, o setor de Serviços, o que mais cresceu. “É um público mais exigente, preparado pela leitura, pela escrita, que carrega valores, eles enxergam algo que não comentamos. Se não são bem atendidos no hotel, eles comentam. Não é como um aventureiro que não está preocupado com isso, mas em explorar a natureza. O guia também precisa ser preparado para lidar com esse público dotado de conhecimento. A maioria dessas pessoas tem mestrado, doutorado… tem que estar preparado para os questionamentos. É tanto que nos destinos aos quais vamos, convidamos historiadores locais para estarem presentes. São logísticas que levam meses de trabalho porque envolve entrar em contato com a segurança do município, disponibilizamos ambulâncias, entramos em contato com as universidades. É algo grandioso e eles se sentem muito importantes e são!”, celebra Rosangela.

O maior interesse dos clientes de Rosângela é pelo turismo religioso. A cada visita, os viajantes conhecem não apenas a história religiosa e os personagens, como interagem com a comunidade local. “Traçamos o roteiro que refaz os caminhos percorridos pelo Padre João Maria, muito conhecido em Natal pela sua bondade. A Arquidiocese está junto ao Vaticano em processo de beatificação e, como exploramos a regionalização, eles vão vivenciar através até de dramatizações, momentos do Padre João Maria nas cidades. Vamos passar por Currais Novos, Florânia, onde tem o Monte de Nossa Senhora das Graças, onde ele fez um trabalho belíssimo, de lá vamos para Jucurutu, onde existe a Barragem de Oiticica, que leva água para os sertanejos, e, em seguida, vamos para Jardim de Piranhas, especialmente na Fazenda Logradouro, onde nasceu Padre João Maria. Lá encerramos com uma missa com a presença do Arcebispo da Arquidiocese, toda a comunidade circunvizinha será convidada. A visita também conta com a presença do artesanato local e do lado de fora da Igreja estará a música, dança e folcloristas, que depois adentram a igreja e são acolhidos. É algo muito maior do que um roteiro que sai de Natal e visita a igreja…”, pondera Rosângela.

O que as pesquisas mostram

No Rio Grande do Norte, a economia prateada já se traduz em números expressivos. Em 2026, o estado contabiliza 48.029 empresas ativas com pessoas acima dos 60 anos no quadro societário. Desse total, 34.154 são pequenos negócios, o que representa mais de 80% dos empreendimentos liderados ou administrados por empreendedores seniores, segundo levantamento do Sebrae-RN.

Os dados refletem uma mudança importante no perfil do envelhecimento brasileiro. Se antes a aposentadoria era vista como o encerramento da vida produtiva, hoje ela tem sido encarada por muitos como uma oportunidade de reinvenção profissional, geração de renda e realização pessoal. “O empreendedorismo tem sido uma escolha para aquelas pessoas que desejam se manter produtivas e complementar a renda após a aposentadoria, quando geralmente a receita diminui e as despesas aumentam. Para essa geração, empreender é também uma forma de continuar ativa social e economicamente. São pessoas com muita vitalidade, que não querem parar de trabalhar. O negócio próprio permite uma rotina mais flexível, com melhor administração do tempo e mais qualidade de vida”, avalia Elizete Lopes, analista técnica do Sebrae-RN.

O avanço desse perfil empreendedor também pode ser observado entre os Microempreendedores Individuais (MEIs). Levantamento do Sebrae aponta que 23% dos MEIs potiguares têm mais de 50 anos, percentual que já supera o número de empreendedores com até 29 anos. À época do estudo, o Rio Grande do Norte registrava cerca de 124 mil MEIs, dos quais aproximadamente 28 mil pertenciam à faixa etária considerada sênior.

Mas, a economia prateada não é formada apenas por quem empreende. Ela também é impulsionada por um público consumidor cada vez mais numeroso, economicamente relevante e consciente de suas escolhas. Com maior expectativa de vida, experiência acumulada e hábitos de consumo específicos, os consumidores acima dos 60 anos vêm influenciando setores como turismo, saúde, bem-estar, educação, tecnologia, moradia e serviços personalizados.

“O consumidor da geração prateada é exigente. Tem poder de compra, mas só adquire aquilo que realmente necessita ou que resolve um problema concreto. Não compra por impulso. É um consumidor consciente, que busca segurança, comodidade e respeito. Por isso, quem deseja atender esse público precisa ouvir o cliente com atenção, compreender suas necessidades e construir relações de confiança. Quando percebe valores alinhados aos seus e sente que é tratado com respeito, o consumidor 60+ costuma ser muito fiel”, destaca Elizete. Lopes

Mais do que consumidores, os seniores tornaram-se protagonistas de um mercado em expansão, impulsionado pela experiência acumulada, pelo desejo de permanecer ativo e pela busca de qualidade de vida. Histórias como as de Conceição Varella e Rosângela Farias mostram que envelhecer não significa encerrar ciclos, mas abrir espaço para novos projetos, novos aprendizados e novas formas de contribuição para a sociedade.

Apesar do potencial econômico crescente, especialistas e empreendedores apontam que o Brasil ainda precisa avançar para atender adequadamente essa parcela da população. Questões como acessibilidade, qualificação profissional e adaptação dos serviços ainda representam desafios para um país que envelhece rapidamente.

“A população está envelhecendo e precisa de cuidado, acolhimento e oportunidades de lazer. A maior dificuldade que encontramos é a falta de mão de obra qualificada e de estrutura adequada nas cidades e na rede hoteleira. Muitos profissionais ainda não estão preparados para lidar com o público sênior. As seguradoras, por exemplo, costumam limitar a cobertura para pessoas acima de determinada idade ou cobram valores muito mais altos. Incentivar o público sênior a viajar é importante, mas precisamos discutir onde está a estrutura necessária para recebê-lo”, observa Rosângela Farias.

Para ela, a inclusão passa pelos detalhes.

“Se chego a um restaurante e o cardápio está apenas em QR Code, também preciso ter uma opção impressa. Meu cliente não pode ser excluído. Ele tem potencial econômico, experiência de vida, repertório cultural e contribui significativamente para a sociedade. Merece respeito, atenção e um cuidado especial. Envelhecer com qualidade ainda é um privilégio para poucos”, aponta.

À medida que a população brasileira envelhece, cresce também a necessidade de enxergar os seniores não apenas como beneficiários de políticas públicas, mas como agentes econômicos capazes de gerar renda, movimentar mercados, criar negócios e transformar realidades. Mais do que uma tendência demográfica, a economia prateada se consolida como uma das principais forças econômicas e sociais das próximas décadas.

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