Foto: Divulgação/Karolina Kanashiro
Montagem destaca a liberdade feminina e reúne artistas de diferentes estados, inclusive cearenses, em apresentações gratuitas no Teatro Carlos Câmara
Uma mulher que não aceita viver sob as regras impostas por outros, uma paixão que se transforma em conflito e uma história escrita no século XIX que continua provocando discussões no presente. É a partir desses elementos que a Cia. de Cantores Líricos de Brasília apresenta Carmen, de Georges Bizet (1838-1875), em Fortaleza. Após temporada em Brasília, a produção inicia sua circulação pelo Nordeste pela capital cearense, com apresentações gratuitas nos dias 16 e 17 de outubro, às 19h, no Teatro Carlos Câmara. Com entrada gratuita, a montagem é financiada pelo Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC) e reúne artistas brasilienses e cearenses, com a participação dos corais Trupecantes – Cia de Artes e Sobretons.
Uma das óperas mais conhecidas do repertório mundial, Carmen acompanha a trajetória de uma cigana que desafia as convenções sociais e escolhe viver de acordo com suas próprias regras. Na trama, Carmen, interpretada pela soprano Érika Kallina, trabalha em uma fábrica de cigarros em Sevilha e acaba presa após um conflito. Don José, vivido por Rafael Ribeiro, é encarregado de sua prisão, mas se deixa envolver pela personagem e permite que ela escape. A partir daí, os dois iniciam uma relação marcada por paixão, ciúme e diferentes concepções de liberdade.
Liberdade feminina
Escrita no século XIX, Carmen marcou a história da ópera ao apresentar uma abordagem mais realista e incorporar elementos associados às sonoridades espanholas e mouras. No centro da narrativa está uma protagonista que rompe com o comportamento esperado das mulheres de seu tempo. Para a direção desta montagem, esse aspecto continua sendo um dos principais motivos para revisitar a obra. “Muito embora a sensualidade de Carmen permaneça latente — o que hipnotiza a todos —, deixamos de lado a ideia estereotipada de ‘mulher fatal’ ou ‘devoradora de homens’ e focamos no símbolo de liberdade das escolhas individuais da personagem. Ela decide seu caminho e escolhe seu destino final”, diz o diretor cênico James Fensterseifer, que também assina a iluminação e os cenários.
A proposta ganha novas camadas na interpretação de Érika Kallina, que vive Carmen pela segunda vez. Para a soprano, retornar à personagem permite aprofundar sua humanidade e escapar de uma leitura baseada apenas na sedução. “Agora, vivendo a personagem pela segunda vez, sinto que posso ir além do clichê da ‘mulher fatal’. Busquei sua humanidade mais pura: ela não é movida por maldade, mas por uma fidelidade inabalável a si mesma e à sua liberdade”, revela. Segundo a cantora, a personagem mantém uma relação direta com questões que ainda fazem parte da realidade contemporânea: “o público vai encontrar no palco um espelho direto das lutas contemporâneas: o direito inegociável da mulher de existir em seus próprios termos, sem medo e sem amarras”.
A atualidade da obra também está relacionada aos conflitos de gênero presentes na narrativa. A relação entre Carmen e Don José permite que a montagem coloque em discussão o sentimento de posse, o machismo e a violência contra a mulher. Para Renata Dourado, soprano, fundadora da companhia e intérprete de Micaela, essa dimensão faz de Carmen uma obra especialmente relevante para o público contemporâneo. “Carmen se faz atual até hoje porque ela foi uma das primeiras mulheres na música erudita a ser colocada como uma mulher independente, à frente do seu tempo, empoderada, não submissa aos homens”, diz Renata. A artista também chama atenção para a possibilidade de a ópera provocar uma reflexão sobre os casos de violência contra mulheres que ainda fazem parte da realidade brasileira.
Participação cearense
A passagem de Carmen por Fortaleza também marca um encontro entre a produção lírica de Brasília e artistas da cena musical cearense. Sob regência do maestro Leandro Serafim, professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), a montagem reúne integrantes da Cia de Cantores Líricos de Brasília a artistas locais, além da participação dos corais Trupecantes – Cia de Artes e Sobretons.
A realização local conta com a participação de Juju Weyne na produção, além de Juliana, Matheus Marques e Daniel Sombra, que também integram o elenco em papéis secundários. Para Daniel, a chegada da montagem a Fortaleza evidencia a capacidade dos artistas cearenses de colaborar com produções de diferentes origens e construir novas possibilidades para a cena operística. “A possibilidade de mostrarmos o quanto de dedicação e comprometimento temos nas realizações dessa cena de ópera é muito importante. Estamos agregando força, mostrando que podemos construir juntos e colaborar”, reflete.
Ficha técnica
Carmen, de Georges Bizet
Regência: Leandro Serafim (Fortaleza)
Direção cênica, iluminação e cenários: James Fensterseifer (Brasília)
Elenco:
Carmen: Érika Kallina (Cia de Cantores Líricos de Brasília)
Don José: Rafael Luiz Ribeiro (Cia de Cantores Líricos de Brasília)
Micaela: Renata Dourado (Cia de Cantores Líricos de Brasília)
Escamillo: Gustavo Rocha (Cia de Cantores Líricos de Brasília)
Frasquita: Juju Weyne (Cia Trupecantes – Fortaleza)
Mercedes: Maria Juliana (Cia Trupecantes – Fortaleza)
Dancairo: Rafael Sousa (Cia Trupecantes – Fortaleza)
Remendado: Daniel Sombra (Cia Trupecantes – Fortaleza)
Zuniga: Bruno Caldeira (Cia Trupecantes – Fortaleza)
Morales: Matheus Marques Melo (Cia Trupecantes – Fortaleza)
Participação especial:
Coral Sobretons (Fortaleza)
Orquestra formada por músicos profissionais de Fortaleza
Realização: Cia de Cantores Líricos de Brasília
Recursos: Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal
Serviço
“Carmen”, ópera de Georges Bizet
16 e 17 de outubro, sexta e sábado
Teatro Carlos Câmara. Rua Dr. João Moreira, 471 – Centro
Ingressos gratuitos pelo Sympla e na bilheteria do teatro
Classificação indicativa de 14 anos
Mais informações pelo Instagram @ciadecantoresliricos