Foto: Lorena Ventunini
Do primeiro sintoma à reabilitação, a integração entre equipes e a adoção de protocolos de emergência são decisivas para reduzir danos ao coração
O infarto agudo do miocárdio atinge, anualmente, entre 300 mil e 400 mil pessoas no Brasil, segundo estimativas do Ministério da Saúde. A cada cinco a sete casos, um resulta em morte. Diante dessa realidade, especialistas destacam a importância das chamadas linhas de cuidado, protocolos que conectam o atendimento de emergência ao diagnóstico, tratamento e acompanhamento do paciente. O objetivo é reduzir o tempo de resposta, preservar o músculo cardíaco e aumentar as chances de sobrevivência.
Para o cardiologista intervencionista baiano Sérgio Câmara, o principal desafio é garantir que cada etapa aconteça sem atrasos. “Quando uma artéria coronária é obstruída, parte do coração deixa de receber oxigênio. Quanto mais tempo essa circulação permanece interrompida, maior o risco de lesões irreversíveis. Uma linha de cuidado eficiente permite que as equipes atuem de forma coordenada, desde a suspeita do infarto até a intervenção”, explica.
A assistência começa antes mesmo da chegada ao hospital. Dor ou pressão no peito, que pode irradiar para braços, costas ou mandíbula, falta de ar, suor frio e náuseas são sinais de alerta. Diante da suspeita, a orientação é acionar imediatamente o Samu (192), evitando deslocamentos por conta própria. Mulheres, idosos e pessoas com diabetes também podem apresentar sintomas menos característicos.
Diagnóstico em minutos
No atendimento de emergência, o eletrocardiograma deve ser realizado e interpretado, preferencialmente, em até dez minutos após o primeiro contato médico. O exame, associado à avaliação clínica e, quando indicado, à dosagem de troponina no sangue, auxilia na identificação do infarto e na definição da estratégia terapêutica.
Nos casos de infarto com supradesnivelamento do segmento ST, geralmente associados à obstrução aguda de uma artéria coronária, a prioridade é restabelecer rapidamente o fluxo sanguíneo. A angioplastia primária, realizada por cateterismo, é o tratamento preferencial quando disponível no prazo recomendado. Em determinadas situações, medicamentos trombolíticos podem ser utilizados para dissolver o coágulo.
Na sala de hemodinâmica, o cardiologista intervencionista atua diretamente para restabelecer a circulação sanguínea no coração. Por meio do cateterismo cardíaco, realizado com a introdução de um cateter geralmente por uma artéria do punho ou da virilha, o especialista identifica o local da obstrução nas artérias coronárias. Confirmada a necessidade de intervenção, pode realizar a angioplastia, utilizando um pequeno balão para ampliar a passagem do sangue e, frequentemente, implantando um stent, estrutura metálica que ajuda a manter a artéria aberta.
“A hemodinâmica tem um papel decisivo no tratamento do infarto porque permite identificar e tratar a obstrução no mesmo procedimento. Quanto mais rapidamente conseguimos restabelecer o fluxo sanguíneo, maiores são as chances de preservar a função cardíaca e evitar complicações graves”, destaca Sérgio Câmara.
Ainda segundo o especialista, não basta contar com tecnologia de ponta se o paciente enfrenta demora para ser diagnosticado ou encaminhado. “O resultado depende também da comunicação entre emergência, cardiologia e hemodinâmica. O tempo perdido antes do procedimento pode comprometer a recuperação”, ressalta o cardiologista intervencionista.
Cuidado continua após a alta
A linha de cuidado não termina com a desobstrução da artéria. Após a estabilização, o paciente precisa de acompanhamento cardiológico, medicamentos, controle dos fatores de risco e, quando indicado, reabilitação cardiovascular. Essa continuidade é fundamental para reduzir a possibilidade de novos eventos.
“O infarto não deve ser tratado como um episódio isolado. A recuperação exige adesão aos medicamentos, controle da pressão arterial, do colesterol e do diabetes, além de mudanças sustentáveis no estilo de vida. Nosso objetivo não é apenas salvar o paciente na emergência, mas ajudá-lo a viver mais e melhor”, conclui Sérgio Câmara.