Em meio aos festejos juninos e ao clima da Copa, inadimplência volta a bater recorde e preocupa o comércio

Enquanto o país vive um dos períodos mais movimentados do calendário para o varejo, impulsionado pelas festas juninas, pelos eventos sociais e pelo entusiasmo da Copa do Mundo, um dado chama a atenção e acende o alerta para o comércio: a inadimplência do consumidor voltou a bater recorde no Brasil.

Números divulgados pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas (CNDL) e pelo SPC Brasil mostram que 75,06 milhões de brasileiros estavam com contas em atraso em maio, o equivalente a 44,8% da população adulta. Em outras palavras, quase um em cada dois adultos enfrenta algum tipo de restrição financeira.

O cenário revela uma contradição que o comércio conhece bem. De um lado, datas comemorativas e eventos sazonais estimulam as compras. Do outro, cresce o número de consumidores que já chegam ao caixa com o orçamento comprometido.

A consequência aparece no dia a dia das lojas. O fluxo diminui, o tíquete médio encolhe e muitas vendas deixam de acontecer porque parte dos consumidores perde acesso ao crédito ou precisa priorizar despesas essenciais.

Além do recorde histórico, a inadimplência segue avançando. Em relação a maio de 2025, o número de inadimplentes cresceu 7,66% no país. Na comparação com abril deste ano, o aumento foi de 0,44%, mostrando que o problema continua se agravando mês após mês.

Outro dado que chama atenção é o perfil dos inadimplentes. A maior concentração está entre pessoas de 30 a 39 anos, faixa que reúne 18,23 milhões de brasileiros negativados. Nessa faixa etária, 53,79% da população possui algum tipo de restrição financeira.

No Rio Grande do Norte, a situação acompanha a tendência nacional e apresenta indicadores que merecem atenção. O número de inadimplentes cresceu 7,92% em relação a maio de 2025, resultado superior à média do Nordeste, que ficou em 6,04%.

A faixa etária de 30 a 39 anos também lidera entre os devedores potiguares, concentrando 24,16% do total de inadimplentes. As mulheres representam 52,84% desse universo, enquanto os homens correspondem a 47,16%.

O levantamento revela ainda que cada consumidor negativado no estado acumula, em média, R$ 4.743,08 em dívidas. Apesar disso, 41,79% dos inadimplentes devem até R$ 1.000, reforçando que muitas famílias acabam enfrentando restrições por valores relativamente baixos, mas que se tornam difíceis de quitar diante da pressão sobre o orçamento doméstico.

Talvez o dado mais preocupante seja o tempo de permanência na inadimplência. Hoje, o consumidor potiguar permanece, em média, 30,5 meses com o CPF negativado — o equivalente a dois anos e meio. Além disso, 36,85% dos devedores estão inadimplentes entre um e três anos.

Para o presidente da CDL Natal, José Lucena, os números refletem um cenário de renda pressionada e de dificuldade crescente das famílias para reorganizar as finanças. “A inadimplência continua avançando, isso nos preocupa, porque mostra que muitas famílias seguem com dificuldade para equilibrar o orçamento. Muitas vezes o consumidor consegue renegociar uma dívida, e nós temos feito campanhas de renegociação de dívidas, mas acaba atrasando outra conta  porque continua enfrentando juros elevados, aumento do custo de vida e compromissos financeiros acumulados”, comentou José Lucena, presidente da CDL Natal.

Outro aspecto que chama atenção é a concentração das dívidas no sistema financeiro. No Rio Grande do Norte, 68,19% dos débitos estão ligados a bancos, financiamentos, empréstimos e cartões de crédito. “A maior parte das dívidas continua concentrada nos bancos, o que mostra o peso do crédito no orçamento das famílias. O mais grave não é entrar na inadimplência, mas permanecer nela por tanto tempo. Hoje o potiguar passa, em média, dois anos e meio com restrições no CPF. Isso reduz o acesso ao crédito, limita o consumo e impacta diretamente a atividade econômica”, destaca o presidente da CDL Natal.

Apesar do cenário desafiador, ele defende que a renegociação das dívidas continua sendo o principal caminho para a recuperação financeira dos consumidores. Contudo pede cautela, o consumidor deve negociar, mas não comprometer ainda mais o orçamento familiar. Segundo Lucena, a CDL Natal já planeja novas ações para estimular a regularização dos débitos no segundo semestre.

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